edição #392

sabotagem

seu burnout pode ter começado antes mesmo da residência. a escolha errada de especialidade não aparece na hora, aparece três anos depois, na sala de plantão.

💼 carreira

a decisão que ninguém te ensina a tomar direito

por amo medicina

Quase ninguém desiste de medicina no primeiro ano de faculdade. A maioria desiste (ou surta) no meio da residência, quando a especialidade escolhida no feeling vira rotina insuportável. Não é falta de competência técnica. É descompasso entre o que você imaginou e o que realmente é passar 60 horas por semana fazendo aquilo. Dado de mercado mostra taxa de troca e desistência de residência bem maior do que a gente gosta de admitir, e o motivo raramente é "não sou bom o suficiente". É "eu não sabia que era assim".

O problema é que o feeling se forma com informação incompleta. Você amou aquele estágio na graduação, mas viu um recorte curado: casos interessantes, sem plantão de madrugada, sem burocracia de prontuário, sem a pressão de fila de convênio. A rotina real da especialidade, a parte chata e repetitiva de gestão de carga, só aparece depois que você já assinou o contrato de residência. Aí é tarde pra descobrir que odeia.

Isso não quer dizer que intuição não vale nada. Quer dizer que ela precisa ser cruzada com dado concreto: tempo de residência, faixa salarial real (não a que o colega mais velho posta no Instagram), demanda de mercado na cidade onde você quer morar, e se a rotina é mais plantão ou mais consultório. Vocação sozinha é ótima pra contar história depois. Péssima como plano de carreira.

No fim, escolher especialidade é uma decisão de duas décadas tomada sob pressão de prova, com prazo curto e informação de qualidade duvidosa. Merece o mesmo cuidado que qualquer outra decisão grande da vida, não o improviso que a gente trata como normal só porque "todo mundo escolhe assim mesmo". Colega médico merece mais do que roleta de feeling pra decidir onde vai passar as próximas décadas trabalhando.

E tem especialidade que sofre ainda mais desse problema, porque o estudante quase não tem contato com ela na graduação. A de hoje é uma delas.

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🩺 especialidade destaque de hoje

especialidade da semana: angiologia

Angiologia é a especialidade que cuida dos vasos sanguíneos e do sistema linfático, de varizes a trombose, e é uma das que menos aparece no currículo da graduação. Enquanto cardiologia e neurologia ganham semanas inteiras de estágio, angiologia costuma sobrar pra um rodízio de poucos dias, o que faz muito médico só descobrir a especialidade tarde, quase por acaso.

O acesso é direto, sem exigir pré-requisito de outra residência, com 3 anos de duração, e a faixa salarial vai de R$ 10 mil a R$ 20 mil. Com o envelhecimento da população e o aumento de doença vascular crônica, a demanda tende só a crescer nos próximos anos, o que torna essa uma especialidade com bom equilíbrio entre tempo de formação curto e mercado aquecido.

🇧🇷 notícia do brasil

retatrutida não está aprovada em nenhum país, alerta anvisa

A Anvisa reforçou o alerta de que a retatrutida, molécula da farmacêutica Eli Lilly ainda em fase de testes clínicos, não tem aprovação em nenhum país do mundo. A empresa nem sequer solicitou registro à Anvisa ou a qualquer outra agência reguladora, mas o produto segue sendo anunciado e vendido irregularmente em perfis de Instagram no Brasil, prática que levou a agência a proibir sua manipulação, importação e venda no país desde janeiro.

O recado é o mesmo de sempre: sem aprovação, não tem controle de dose, qualidade ou procedência garantidos. Vale o mesmo raciocínio da seção de hoje, correr atrás de modismo sem esperar o dado chegar tem custo, seja na escolha de carreira, seja na hora de indicar um tratamento pro paciente.

🌍 notícia do mundo

novos alvos terapêuticos pra pré-eclâmpsia

Pesquisadores da University College London mapearam, célula por célula, o que acontece na placenta de gestantes com pré-eclâmpsia grave, e encontraram novos alvos terapêuticos possíveis. A condição afeta de 2% a 4% das gestações no mundo todo e ainda tem poucas opções de tratamento além de antecipar o parto. O estudo analisou tecido além da placenta, olhando também células da mãe e do bebê separadamente, o que deu uma resolução muito maior do que pesquisas anteriores.

A conclusão prática é que agir cedo na gravidez, principalmente nos casos de início precoce, pode ser o caminho pra melhorar desfecho. Ainda não é tratamento pronto pra consultório, mas é a base pra um que pode vir.

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