Edição #354

Bom dia

Quatro pautas que chegam antes do seu primeiro paciente.

A inflação médica em 2026 é de 11% e a sua consulta provavelmente não foi reajustada. Um biomarcador sanguíneo associado ao Alzheimer acabou de mostrar que também detecta doença do coração. O SUS tem um novo protocolo para prevenção de IST com janela de 72 horas. E tem uma pergunta sobre especialidade que a maioria dos médicos nunca fez para si mesmo.

Cinco minutos. Começa aqui.

🎓 Carreira na medicina

A especialidade que você escolheu e o custo oculto de não se perguntar por quê

Existe um momento na vida do médico em que a escolha da especialidade deixa de parecer escolha e passa a parecer destino. "Sempre fui de cirurgia", "minha família é de clínica geral", "entrei na residência que abriu vaga". A narrativa vai se solidificando e com ela vai um conjunto de expectativas sobre o que a carreira deveria ser, que raramente é revisada.

O problema não é escolher errado. É não escolher conscientemente.

Uma pesquisa do Medscape com 1.838 médicos de 38 especialidades mostrou que 26% sofrem de burnout e 13% classificaram o quadro como grave, a ponto de cogitarem abandonar a medicina.

Entre os fatores mais citados estão baixa remuneração, carga horária excessiva e burocracia. Mas há um fator menos falado: a dissonância entre a especialidade escolhida e o perfil real do médico.

As especialidades com maiores taxas de burnout são Medicina Intensiva, Medicina de Família e Medicina de Emergência. Não por acaso, são as que exigem perfis muito específicos, com alta tolerância a incerteza, ritmo caótico e pacientes sem continuidade de cuidado. E frequentemente recebem médicos que chegaram ali por eliminação, não por escolha.

A pergunta que ninguém faz na residência

O que você faria de graça? Não como hobbie. Como trabalho. Qual a parte da medicina que, mesmo cansado, ainda te parece estimulante? A resposta não resolve sozinha a questão da especialidade, mas funciona como dado clínico sobre si mesmo. Ignorar esse dado tem custo real: não é raro encontrar médicos de 38 anos tecnicamente competentes e profissionalmente exaustos que nunca pararam para fazer essa pergunta.

O que fazer agora

Mapear não é mudar de especialidade. É entender onde você drena energia desnecessária e onde você recarrega. Para quem está na residência: a escolha ainda pode ser ajustada, seja por subespecialidade, por modelo de atuação (plantão versus consultório versus telemedicina) ou por formato de prática (solo, clínica, hospital, empresa). Para quem já está estabelecido: a pergunta muda de "qual especialidade?" para "qual modelo de prática dentro da minha especialidade ainda me faz sentido?". São perguntas diferentes, mas igualmente necessárias.

💰 Finanças

Sua consulta perdeu valor em 2025 e você provavelmente não reajustou

Tem um número que poucos médicos conhecem e que afeta diretamente a margem do consultório: a inflação médica brasileira.

A consultoria WTW divulgou a edição 2026 da pesquisa Global Medical Trends apontando que a projeção da inflação médica no Brasil para 2026 é de 11%, acima da média global de 10,3% e próxima da média da América Latina de 11,9%. Essa inflação não é a do IPCA. É a inflação específica do setor de saúde: custos de insumos, equipamentos, manutenção, mão de obra especializada e tudo que compõe a operação de um consultório.

O que isso significa na prática

Se a sua consulta custava R$ 300 em janeiro de 2025 e você não reajustou em 2026, ela vale hoje o equivalente a R$ 270 em poder de compra. Você não abaixou o preço. Mas foi como se tivesse. O IPCA acumulado em 2025 foi de 4,26% segundo o IBGE, e a projeção do reajuste ANS para planos individuais em 2026 é de 7,5%. O convênio vai reajustar a tabela dele por esse percentual. O seu custo operacional vai subir 11%. E a sua consulta particular vai ficar onde está, se você não fizer nada.

O problema do médico que tem vergonha de cobrar mais

Existe uma crença difusa de que reajustar honorários afasta paciente. Às vezes afasta. Mas o médico que não reajusta também tem um problema: trabalha mais para manter a mesma renda líquida enquanto os custos crescem. A conta fecha por um tempo. Depois não fecha mais.

Como calcular o reajuste correto

O método mais simples usa três componentes. Primeiro, some todos os custos fixos do consultório no último mês: aluguel, secretária, sistema, contador, energia, material. Divida pelo número de consultas realizadas. Esse é o seu custo por consulta. Segundo, aplique sobre esse custo o percentual de inflação do período, no mínimo o IPCA de 4,26%, idealmente os 11% da inflação médica setorial. Terceiro, adicione a margem de lucro pretendida, que deve ser entre 30% e 50% sobre o custo. O número que resultar é o seu preço de equilíbrio. Se a sua consulta atual está abaixo disso, você está subsidiando o paciente com a sua própria renda.

Como comunicar sem perder paciente

Comunique com pelo menos dois meses de antecedência, explicando os motivos e a data de vigência. Pode ser via WhatsApp, e-mail ou na recepção. A mensagem não precisa ser extensa. Um exemplo que funciona: "A partir de maio, nossa consulta passa a custar R$ X, acompanhando os índices de inflação médica do período. Agendamentos até abril mantêm o valor atual." Simples, justo e sem dramatização.

O que fazer esta semana

Abra a planilha ou o sistema do consultório e some os custos fixos de março. Divida pelo número de consultas do mês. Esse é o seu custo unitário real. Se a sua consulta está menos de 40% acima desse número, sua margem está comprometida e o reajuste não é escolha. É necessidade.

🇧🇷 Notícia do Brasil

O SUS vai distribuir doxiciclina para prevenir IST após exposição de risco

O Ministério da Saúde confirmou a ampliação do uso da doxiciclina no SUS como profilaxia pós-exposição para infecções sexualmente transmissíveis, a chamada doxy-PEP. O protocolo, já adotado nos EUA e em países europeus, chega agora ao sistema público brasileiro.

A doxiciclina 200mg tomada em até 72 horas após exposição sexual de risco reduz em até 87% a incidência de clamídia e sífilis e em cerca de 55% a de gonorreia, conforme os dados dos estudos que embasam o protocolo. O público prioritário é o mesmo da PrEP: homens que fazem sexo com homens e mulheres trans com múltiplos parceiros ou histórico de IST recente.

Se você atende na atenção primária, em ambulatórios de IST ou em unidades com dispensação de PrEP, a doxy-PEP vai entrar no fluxo de atendimento como mais uma ferramenta de prevenção combinada. Prescrição médica, janela de 72 horas, dose única de 200mg. O gargalo operacional não vai ser o medicamento. Vai ser garantir que o paciente chegue ao médico dentro dessa janela.

🌍 Notícia do Mundo

O exame de sangue do Alzheimer também acusa doença do coração e do rim

Cientistas alemães da Universidade de Tübingen descobriram, em março de 2026, que a proteína pTau, o biomarcador sanguíneo associado ao Alzheimer, também se eleva na amiloidose sistêmica, uma condição que destrói o coração e os rins. A descoberta foi publicada na Nature Medicine e analisou dados de 280 idosos na Alemanha, Itália e Holanda.

Até agora, pTau alto no sangue era lido como sinal de Alzheimer até prova em contrário. A medicina entende agora que o marcador pode indicar também o acúmulo de proteínas tóxicas atacando o coração ou os rins, e a avaliação clínica vai definir qual é a doença. Na prática: o idoso com pTau elevado, cognição preservada e insuficiência cardíaca inexplicada merece investigação para amiloidose sistêmica, não apenas para demência.

Tanto o Alzheimer quanto a amiloidose sistêmica fazem a pTau subir no sangue. O Alzheimer acumula proteína amiloide-beta no cérebro; a amiloidose sistêmica acumula outro tipo de proteína no coração. O que as duas têm em comum é a sinalização pelo mesmo biomarcador.

Os exames de pTau (especialmente o p-tau217) estão chegando aos grandes laboratórios brasileiros como ferramenta de triagem para demência. Cardiologistas e nefrologistas que atenderem idosos com insuficiência cardíaca de causa obscura podem se deparar com pTau alto em exames solicitados por neurologistas e precisam saber o que fazer com esse dado. Existe tratamento: estabilizadores de transtirretina impedem a progressão da doença no coração se aplicados precocemente, e o diagnóstico precoce mudou drasticamente o prognóstico.

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