edição #339

Bom dia.

Existe um ditado nos corredores que diz: "Só não erra quem não prescreve".

Hoje, quinta-feira, vamos tocar na ferida mais sensível da nossa profissão: o erro médico. Não para julgar, mas para entregar o protocolo de sobrevivência (jurídica e psicológica) para quando o inevitável acontecer.

Além disso, vamos desmontar a falácia da "Previdência Privada" que o seu gerente tenta te vender e mostrar onde o dinheiro realmente rende.

Prepare o café (e o estômago). Boa leitura.

🩺 Carreira

Lidando com o Erro Médico: O protocolo da "Segunda Vítima"

por Dr. João Carvalho & amo medicina

Existe um ditado cruel nos corredores: "só não erra quem não opera ou não prescreve". O erro médico é o tabu máximo da nossa profissão, um fantasma que assombra do interno ao titular. Quando a iatrogenia acontece — seja uma dose errada, uma lesão inadvertida ou um atraso diagnóstico —, a resposta instintiva é o pânico, seguido pelo silêncio. Entramos no fenômeno da "segunda vítima": o paciente sofre o dano físico, mas o médico sofre o trauma psicológico, muitas vezes paralisante, sentindo-se uma fraude e isolando-se por medo do julgamento dos pares e do processo judicial.

A conduta ética e jurídica correta, contudo, é contraintuitiva ao medo. O erro mais grave não é o evento adverso em si, mas a tentativa de ocultá-lo. A quebra de confiança e a falta de acolhimento geram muito mais processos no CRM do que a falha técnica. O paciente (ou a família) percebe quando algo está errado. Fugir, dar alta precoce ou evitar passar visita no leito da intercorrência são atitudes que transformam um erro culposo (sem intenção) em uma percepção de dolo ou negligência. A transparência é a melhor blindagem, mas ela exige técnica: é preciso comunicar o fato clínico sem necessariamente assumir culpa jurídica antes de uma análise técnica pericial.

Documentalmente, o prontuário vira a "caixa-preta" do avião. A tentação de não registrar o erro ou, pior, de alterar o registro retroativamente (o que é crime) deve ser combatida. O prontuário deve narrar os fatos, a intercorrência, o reconhecimento imediato do problema e as medidas tomadas para mitigar o dano. O juiz entende que a medicina é falível; o que ele não perdoa é o abandono do paciente ou a adulteração da verdade. Assumir a responsabilidade pela assistência ao erro é diferente de assumir culpa civil imediata, e essa distinção salva carreiras.

📌 Conduta para agora:

  • Para o Recém-Formado:

    • Acione a Hierarquia: Nunca leve o erro para casa sozinho. Ao perceber a falha, chame imediatamente o chefe do plantão ou o staff. "Chefe, fiz a medicação X e o paciente rebaixou. Preciso de ajuda". Dividir a responsabilidade mitiga o dano ao paciente e protege você.

    • O que NÃO falar: Evite frases de julgamento moral imediato como "Eu matei o paciente" ou "Fiz uma besteira enorme". Use linguagem técnica: "Houve uma intercorrência grave relacionada à medicação X, estamos revertendo o quadro".

  • Para o Médico Experiente (Staff):

    • Acolhimento da Equipe: Se o seu residente errou, não o destrua publicamente. O erro já é a punição. Faça o debriefing em particular, foque no aprendizado sistêmico (por que o erro aconteceu?) e não na culpa individual.

    • Comunicação com a Família: Use o protocolo SPIKES. Sente-se, olhe no olho e explique a evolução clínica. "Infelizmente, durante o procedimento, houve uma lesão na estrutura Y, que foi corrigida imediatamente, mas exigirá mais dias de UTI".

💰 Finanças para médicos

Previdência Privada vs. Investir Sozinho: O custo da preguiça

A cena é clássica: você abre a conta PJ no banco e o gerente, sorridente, oferece um plano de Previdência Privada (VGBL ou PGBL) como a "solução para o seu futuro". Ele vende a facilidade do débito automático e a segurança de uma grande instituição. O que ele não te conta é sobre as taxas de carregamento e, principalmente, as taxas de administração abusivas (acima de 2% ao ano) que comem, silenciosamente, um terço da sua rentabilidade no longo prazo. Para o médico jovem, que tem 30 anos de juros compostos pela frente, aceitar um produto bancário medíocre é deixar milhões na mesa.

Matematicamente, investir sozinho (comprando Tesouro IPCA+ ou uma carteira diversificada de ETFs e FIIs) quase sempre vence a previdência de bancão. A liberdade de não pagar taxa de administração para um gestor que muitas vezes perde para o CDI é valiosa. No entanto, a Previdência Privada tem um trunfo fiscal imbatível para o médico de alta renda: o PGBL. Se você faz a declaração completa do Imposto de Renda e paga 27,5% de alíquota, aportar em um PGBL permite deduzir esse valor (até 12% da sua renda bruta anual) da base de cálculo. É o único "almoço grátis" que o governo dá: você deixa de pagar imposto hoje para pagar apenas no resgate, lá na frente, com alíquota regressiva de 10%.

A decisão final, portanto, é comportamental. Investir sozinho exige disciplina de ferro: todo mês abrir a corretora e comprar ativos, ignorando as oscilações do mercado. A Previdência vence na "inércia": o dinheiro sai da conta antes que você o gaste. Para o médico desorganizado, uma previdência ruim é melhor do que nenhum investimento. Mas para o médico que quer otimizar patrimônio, a estratégia híbrida costuma ser a campeã: usar o benefício fiscal do PGBL no limite e investir o restante por conta própria, fugindo das taxas bancárias.

📌 Conduta para agora:

  • Para o Recém-Formado:

    • Fuja do Gerente: Provavelmente sua renda inicial não justifica um PGBL (você deve estar na declaração simplificada ou isento se for residente bolsista). Não contrate previdência agora. Monte sua reserva no Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária.

    • Aprenda o Básico: Dedique 2 horas para entender o que é o Tesouro IPCA+. É a "previdência" do governo, sem taxa de administração e com rendimento real acima da inflação.

  • Para o Médico Experiente:

    • A Regra dos 12%: Se você ganha R$ 500 mil/ano (bruto tributável) e faz declaração completa, coloque R$ 60 mil em um PGBL de taxa baixa (busque seguradoras independentes, não grandes bancos). O resto, invista fora.

    • Portabilidade: Se você já tem uma previdência antiga no banco com taxa de administração de 2% ou 3%, peça portabilidade HOJE para uma corretora com taxas menores (0,5% a 1%). É gratuito e não paga imposto na transferência.

🇧🇷 Notícia do Brasil

Anvisa aperta o cerco: Proibição de "canetas emagrecedoras" sem registro

A Anvisa determinou a proibição imediata da comercialização, distribuição e uso de quaisquer "canetas emagrecedoras" (análogos de GLP-1) que não possuam registro sanitário regular no país. A medida é uma resposta direta ao crescimento exponencial do mercado paralelo e à venda indiscriminada de produtos falsificados ou contrabandeados em plataformas digitais, que colocam a saúde pública em risco severo.

Para a prática clínica, o alerta é de farmacovigilância. O uso de produtos sem rastreabilidade e procedência garantida expõe o paciente a riscos imprevisíveis, que vão desde a ineficácia terapêutica (ausência de princípio ativo) até reações adversas graves causadas por contaminação ou substituição por substâncias como insulina, como já relatado em outros países. O manejo de complicações torna-se um desafio quando não sabemos o que foi, de fato, injetado.

Nossa conduta deve ser proativa: é fundamental orientar os pacientes sobre os perigos da "automedicação digital" e da compra de medicamentos fora das farmácias credenciadas. A economia na compra do fármaco no mercado cinza pode custar caro em complicações metabólicas e infecciosas. Reforce a importância de verificar a autenticidade da embalagem e o selo de rastreabilidade.

🌍 Notícia do Mundo

Financiamento em risco: Cortes ameaçam resposta global ao HIV

Reprodução: HealthNews

Um novo alerta internacional aponta que a redução nos investimentos globais está a colocar em cheque décadas de avanços no combate ao HIV/SIDA. A restrição orçamental em grandes programas de financiamento ameaça descontinuar serviços essenciais de prevenção e tratamento, atingindo desproporcionalmente as populações-chave e mais vulneráveis.

Para a comunidade médica, o cenário é de apreensão. Sabemos que o controle da epidemia depende de uma estratégia contínua de "Testar e Tratar". A interrupção de verbas pode resultar na falta de acesso a antirretrovirais e profilaxias (PrEP), criando um ambiente propício para o aumento da carga viral comunitária, novas infeções e o surgimento de resistências virais.

O relatório sublinha que a resposta ao HIV não pode perder prioridade na agenda global de saúde. O recuo financeiro agora pode custar muito mais caro no futuro, com o potencial ressurgimento de casos graves e mortalidade associada à SIDA, revertendo metas cruciais estabelecidas para 2030.

🃏 Flashcards

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