edição #380

Bom dia. A forma como o médico entra no consultório, conduz a consulta e encerra o atendimento comunica muito mais do que o diagnóstico. A vacina da dengue do Butantan foi suspensa em 8 de junho após 42 eventos adversos, e o ex-ministro Queiroga denunciou que o imunizante entrou no SUS sem cumprir o rito legal. Pesquisadores da Universidade da Califórnia realizaram o primeiro teste clínico mundial de células-tronco aplicadas em feto para tratar espinha bífida, com todos os bebês nascendo sem complicações. E a SpaceX estreou na Nasdaq em 12 de junho por US$135 por ação, no maior IPO da história. Começa aqui.

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O médico que transmite confiança antes de falar já ganhou metade da consulta.

A medicina ensina diagnóstico, conduta e prescrição. Não ensina como entrar em uma sala, como sentar, como olhar para o paciente ou como encerrar uma consulta. Essas coisas ficam para o improviso. E o improviso, ao longo do tempo, vira hábito. Hábito bom ou hábito ruim, dependendo do que foi sendo construído.

A comunicação não verbal do médico começa antes de qualquer palavra. A postura ao entrar no consultório, a velocidade com que se senta, se o olho vai direto para a tela do computador ou para o paciente, a distância física mantida durante o exame, a expressão ao ouvir a queixa principal. Tudo isso é lido pelo paciente em segundos, muito antes de qualquer explicação médica começar.

Postura e presença. O médico que entra apressado, senta-se imediatamente e abre o prontuário sem olhar para o paciente comunica, involuntariamente, que aquela consulta é mais uma na fila. O que entra, para brevemente, estabelece contato visual antes de se sentar e faz uma pergunta aberta antes de tocar no computador comunica presença. A diferença no resultado clínico é mensurável: pacientes que percebem o médico como presente e atento têm maior adesão ao tratamento e relatam maior satisfação, independentemente do tempo de consulta.

Tom de voz. O ritmo da fala, o volume e as pausas são tão importantes quanto o conteúdo. Um médico que fala rápido demais transmite pressa. Um que fala devagar demais em termos técnicos transmite distância. O ponto de equilíbrio é adaptar o ritmo ao paciente: mais devagar com idosos, mais direto com quem já conhece o diagnóstico, mais acolhedor com quem está recebendo uma notícia difícil. A voz não precisa ser naturalmente suave. Precisa ser calibrada para a situação.

Aparência e apresentação. Jaleco limpo e bem conservado, crachá visível, mãos higienizadas antes do exame físico na presença do paciente, esses detalhes constroem confiança silenciosamente. Não se trata de estética pessoal, mas de sinais que comunicam cuidado e profissionalismo. O paciente que vê o médico higienizar as mãos antes de tocá-lo sente que está sendo cuidado, não apenas examinado.

O encerramento é a última memória. Pelo que já discutimos sobre a Peak-End Rule de Kahneman: o paciente vai lembrar principalmente dos últimos 2 a 3 minutos da consulta. Um encerramento apressado, sem olhar nos olhos, sem resumo claro do que ficou combinado e sem abertura para perguntas finais apaga tudo o que foi bem feito antes. Um encerramento com atenção total, orientação clara e uma palavra de encorajamento pode salvar uma consulta que foi tecnicamente boa mas emocionalmente fria.

Onde você está hoje: na sua última semana de consultas, qual foi o último gesto que você fez antes de o paciente sair da sala? Se a resposta for "já tinha virado para o computador", esse é o ponto de partida.

Rapidinhas

🇧🇷 Notícia do Brasil

Vacina do Butantan suspensa: irregularidade no rito de incorporação ao SUS e 42 eventos adversos.

Reprodução: Revista Oeste

O Ministério da Saúde anunciou em 8 de junho a suspensão temporária da Butantan-DV, a vacina nacional contra a dengue, após o registro de 42 eventos adversos em aproximadamente 500 mil doses aplicadas, sendo três casos graves e dois óbitos em investigação. A medida foi adotada por precaução, em consenso entre o Ministério e a Anvisa, após identificação de reações inesperadas e incompatíveis com os estudos clínicos realizados antes da aprovação.

A suspensão, por si só, segue o protocolo padrão de farmacovigilância. O que acendeu um debate mais amplo foi a denúncia do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga. Queiroga afirma que a vacina entrou no SUS sem passar pelo rito exigido por lei. A Anvisa aprovou o imunizante em novembro de 2025, e meses depois o Ministério começou a aplicá-la via Nota Técnica nº 11/2026, com o argumento de que a tecnologia vacinal já estava incorporada ao SUS pela Conitec, mas amparada na avaliação feita para a vacina da Takeda. O próprio guia do Ministério reconhece que as duas vacinas são produtos distintos.

A suspensão foi feita para investigar se há relação de causalidade entre os eventos adversos e a vacina. O mecanismo de vigilância continuou funcionando depois da aprovação regulatória, o que é exatamente o que se espera de um sistema de farmacovigilância ativo. Para o médico que vacinava pacientes com a Butantan-DV: quem recebeu a vacina há mais de 21 dias não tem motivo de preocupação imediata. O monitoramento deve ser reforçado para pacientes vacinados que apresentem sintomas, com atenção especial a sinais de alarme de dengue grave.

🌍 Notícia do Mundo

Células-tronco injetadas em fetos durante a cirurgia pré-natal abrem nova era na medicina fetal.

Reprodução: Agência Fonte Exclusiva

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Davis realizaram o primeiro ensaio clínico do mundo que combina cirurgia pré-natal para espinha bífida com aplicação direta de células-tronco placentárias no feto. Os resultados iniciais, publicados na The Lancet, indicam que o procedimento foi seguro e todos os bebês tratados nasceram sem complicações.

O contexto clínico que torna esse resultado expressivo: a espinha bífida aberta, ou mielomeningocele, é tratada atualmente por cirurgia fetal, mas cerca de 60% dos bebês continuam sem andar ou se movimentar de forma independente mesmo após o procedimento. Com a nova abordagem utilizando células-tronco placentárias, todos os recém-nascidos do estudo vieram ao mundo sem complicações.

A esperança é que as células-tronco trabalhem para reparar e restaurar o tecido espinhal avariado, já que a cirurgia antes do nascimento pode ajudar ou até mesmo prevenir problemas no desenvolvimento da coluna do bebê. A equipe recebeu autorização para realizar uma pesquisa clínica com 29 participantes, e as crianças serão acompanhadas até os 30 meses de idade para avaliar eficácia e segurança. Para o obstetra, o neurocirurgião pediátrico e o geneticista: o diagnóstico pré-natal de mielomeningocele já indica cirurgia fetal em centros especializados. A terapia celular ainda está em fase experimental, mas o perfil de segurança inicial e o mecanismo de reparo tecidual representam um avanço genuíno que deve ser acompanhado de perto.

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