edição #382

Bom dia. A palavra "vender" ainda causa arrepio em muitos médicos, mas a realidade é que todo atendimento é uma relação de confiança construída, e confiança se comunica. A Anvisa aprovou o Inluriyo, primeiro medicamento oral em comprimidos para câncer de mama avançado com mutação ESR1, que reduz em 38% o risco de progressão da doença. Piadas ruins fazem bem ao cérebro: pesquisadores descobriram que uma sessão de risada pode derrubar o cortisol em até 36%. E o ENAMED será requisito obrigatório para exercício da medicina no Brasil a partir de 2027. Começa aqui.

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O médico que não sabe vender não é humilde. É invisível.

A palavra "venda" incomoda a maioria dos médicos. Parece comercial demais, distante demais da vocação. Mas a realidade é que o médico vende o tempo todo, mesmo sem perceber. Vende quando explica ao paciente por que aquela conduta é a melhor opção. Vende quando convence alguém a aderir a um tratamento longo. Vende quando apresenta o consultório a um novo paciente e precisa transmitir confiança em menos de 10 minutos.

O problema não está em vender. Está em vender mal, sem método, sem consciência, sem entender que a comunicação eficaz é uma habilidade treinável, não um dom.

A metodologia SPIN Selling, criada por Neil Rackham nos anos 1980 e usada até hoje em vendas complexas de alto valor, tem aplicação direta na consulta médica. SPIN é uma sigla para quatro tipos de perguntas: Situação, Problema, Implicação e Necessidade de solução. O vendedor que domina essa sequência não "empurra" nada. Ele conduz o cliente a perceber, por conta própria, que precisa agir.

Na prática médica, isso acontece todos os dias. Quando o cardiologista pergunta "há quanto tempo você não faz check-up?" (Situação), depois "você tem sentido alguma coisa diferente?" (Problema), depois "você sabe o que pode acontecer se essa pressão continuar assim?" (Implicação), e finalmente "vamos montar um plano para resolver isso juntos?" (Necessidade de solução), ele está usando SPIN sem saber. A diferença é que quando faz isso conscientemente, o resultado é melhor: mais adesão, mais retorno, mais confiança.

A segunda habilidade que o médico precisa desenvolver é a escuta ativa. Uma pesquisa publicada no Journal of General Internal Medicine mostrou que médicos interrompem o paciente em média após 11 segundos de fala. O paciente que não termina de falar sai com a sensação de que não foi ouvido, mesmo que o diagnóstico esteja correto. E paciente que não se sente ouvido não volta, não indica e não adere.

A terceira habilidade é o follow-up. O médico que encerra a consulta e não faz nenhum contato até a próxima visita está perdendo a oportunidade de construir recorrência. Uma mensagem simples de acompanhamento após um procedimento, um lembrete de retorno ou um conteúdo educativo enviado por WhatsApp ou e-mail custa zero e constrói vínculo que nenhum anúncio pago consegue replicar.

Vender não é convencer alguém a comprar algo que não precisa. É comunicar valor de forma clara para quem já precisa do que você oferece. O médico que domina essa habilidade não precisa competir por preço. Compete por confiança.

Onde você está hoje: quantos pacientes novos chegaram ao seu consultório no último mês por indicação direta de pacientes antigos? Se o número for baixo, o problema pode não ser a qualidade do seu trabalho, mas a forma como você comunica o valor dele.

Rapidinhas

🇧🇷 Notícia do Brasil

Anvisa aprova primeiro medicamento oral em comprimidos para câncer de mama avançado com mutação ESR1.

Reprodução: Portal tempo novo

A Anvisa publicou o registro do Inluriyo (tosilato de inlunestranto), da Eli Lilly, indicado para adultos com câncer de mama localmente avançado ou metastático, após tratamento prévio com terapia endócrina. O medicamento é indicado para tumores com receptor de estrogênio positivo (ER+), receptor HER2 negativo (HER2-) e mutação no gene ESR1, alteração genética associada à resistência a terapias hormonais tradicionais.

O Inluriyo é o primeiro medicamento oral em comprimido aprovado no Brasil para essa indicação específica, o que facilita a adesão ao tratamento em comparação a terapias que exigem infusão intravenosa. O mecanismo de ação é diferenciado: o inlunestranto se liga aos receptores de estrogênio alterados pela mutação ESR1, bloqueia sua atividade e promove sua degradação, atacando diretamente o mecanismo de resistência que faz com que a doença progrida após terapias hormonais convencionais.

Os dados do estudo clínico de fase 3 EMBER-3 mostraram que o Inluriyo em monoterapia reduziu em 38% o risco de progressão da doença ou morte quando comparado à terapia endócrina padrão. Entre pacientes com câncer de mama metastático e mutação ESR1, a sobrevida livre de progressão alcançou mediana de 5,5 meses, ante 3,8 meses com as terapias convencionais.

O câncer de mama é a neoplasia mais incidente em mulheres no Brasil, com estimativa de 73.610 novos casos no triênio 2023-2025, representando 30,1% dos cânceres femininos. Para o oncologista e o mastologista: a aprovação amplia o arsenal terapêutico para pacientes que progrediram após terapia endócrina. A testagem para mutação ESR1 passa a ter relevância clínica direta na definição da linha de tratamento. A decisão da Anvisa não garante incorporação imediata ao SUS.

🌍 Notícia do Mundo

Piadas de pai reduzem cortisol em até 36% e fazem bem ao cérebro. Sério.

Psicólogos Paul J. Silvia e Meriel I. Burnett analisaram milhares de exemplos e concluíram que as "piadas de pai" são estruturalmente distintas de outros tipos de humor: baseadas em trocadilhos e jogos de palavras simples, com estrutura previsível que as torna acessíveis para todas as idades. E essa simplicidade não é fraqueza. É o mecanismo que as torna biologicamente eficazes.

O riso reduz hormônios de estresse como cortisol e epinefrina ao mesmo tempo que aumenta dopamina, serotonina e endorfinas. Uma revisão publicada na PLOS One em 2023 encontrou que uma única sessão de risada pode derrubar o cortisol em mais de 36%. Essa queda ativa regiões como o córtex pré-frontal, ajudando o cérebro a processar ideias complexas.

O benefício se estende à unidade familiar. O riso compartilhado aumenta a ocitocina, hormônio ligado ao vínculo emocional entre pais e filhos, e promove o que psicólogos chamam de corregulação: a capacidade de gerenciar o próprio estresse a partir de experiências positivas compartilhadas.

Jacqueline Harding, especialista em desenvolvimento infantil da Middlesex University de Londres, resumiu numa frase o que a ciência está mostrando: esperança e humor não são tempero da vida, são ingredientes fundamentais para o desenvolvimento saudável.

Para o médico que atende crianças, adolescentes ou famílias: humor no consultório não é falta de seriedade. É ferramenta clínica. Dois minutos de leveza no início da consulta podem reduzir a ansiedade do paciente, melhorar a qualidade da anamnese e aumentar a adesão ao tratamento. E para o médico que é pai: a piada ruim que faz seu filho revirar os olhos está, literalmente, construindo vínculos neurológicos.

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