edição #384

Bom dia. A precificação da consulta é uma das habilidades mais negligenciadas da carreira médica, e a maioria dos médicos nunca parou para calcular quanto deveria cobrar. O NHS britânico identificou 1.900 casos de HIV não diagnosticados testando automaticamente pacientes em pronto-socorros, ao custo de £6 por teste, um modelo que o Brasil deveria observar. O Ozivy, primeira semaglutida brasileira, esgotou nas farmácias em dias após o lançamento. E a Força Nacional do SUS ganhou sua primeira base regional em Porto Alegre, com R$1,8 bilhão anunciados para o novo Complexo Hospitalar de Saúde Inteligente do GHC. Começa aqui.

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Como precificar sua consulta sem culpa. E sem perder paciente.

Reprodução: Archdaily

O médico passa seis anos na graduação, dois a cinco na residência, investe dezenas de milhares de reais em formação continuada e, quando chega a hora de precificar a consulta, faz o seguinte: olha quanto os colegas cobram e coloca um valor parecido. Ou pior: cobra menos para "não assustar" o paciente.

Esse processo não é precificação. É chute com desconto emocional.

A precificação correta começa com uma conta que quase ninguém faz: o custo total da hora clínica. Aluguel do consultório dividido pelas horas de atendimento, folha de equipe, sistema de prontuário, energia, contador, material de consumo, plano de saúde pessoal, previdência. Some tudo e divida pelo número de consultas que você faz por mês. O resultado é o custo mínimo por consulta, antes de qualquer margem de lucro. A maioria dos médicos nunca fez essa conta e, por isso, não sabe se está lucrando ou apenas empatando.

O segundo passo é entender que preço não é o mesmo que valor percebido. O paciente não paga pela duração da consulta. Paga pela confiança de que está sendo bem cuidado. O médico que atende em 15 minutos com atenção total, escuta ativa, orientação clara por escrito e follow-up posterior pode cobrar mais do que o que atende em 40 minutos sem olhar nos olhos do paciente. O valor percebido se constrói antes, durante e depois da consulta, não apenas no ato médico.

O terceiro ponto é a comunicação do preço. O médico que sente culpa ao informar o valor tende a falar rápido, evitar o assunto ou delegar para a secretária sem contexto. Isso transmite insegurança. O paciente sente. E quando o paciente sente que o próprio médico não acredita no preço que cobra, a percepção de valor cai junto. A forma mais eficaz de comunicar é objetiva e sem justificativa excessiva: "O valor da consulta é R$X, inclui avaliação completa, orientações por escrito e acompanhamento pós-consulta." Ponto. Sem desculpa, sem comparação.

O quarto ponto, o mais ignorado, é que cobrar barato atrai o paciente errado. O paciente que escolhe o médico pelo menor preço vai trocar de médico no momento em que encontrar alguém mais barato. Ele não está comprando confiança. Está comprando preço. E preço é a variável mais fácil de perder. O médico que atrai paciente por valor, por reputação e por resultado retém esse paciente independentemente de oscilação de preço, exatamente como uma marca forte no mercado.

O quinto e último ponto: reajuste anual é obrigatório, não opcional. A inflação médica roda a 11% ao ano. Se o médico não reajusta pelo menos uma vez por ano, está aceitando ganhar menos para trabalhar igual. E o reajuste não precisa ser comunicado com culpa. Precisa ser comunicado com antecedência e normalidade: "A partir de janeiro, o valor da consulta será atualizado para R$X." Quem faz isso de forma consistente perde menos pacientes do que quem não reajusta por três anos e depois dá um salto de 40%.

Onde você está hoje: você sabe exatamente quanto custa cada hora que você passa no consultório, incluindo todos os custos fixos e variáveis? Se a resposta for não, você está precificando no escuro. Esse é o primeiro cálculo a fazer..

📊 Enquete do dia

Rapidinhas

🇧🇷 Notícia do Brasil

HCor investe R$4,4 milhões em eficiência energética e projeta economia de R$1,4 milhão por ano.

Reprodução: Saúde Business

O Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, iniciou a modernização do sistema de climatização com investimento de R$4,4 milhões, viabilizado pela chamada pública do Programa de Eficiência Energética da Enel, regulado pela ANEEL. A principal intervenção é a substituição do chiller central por tecnologia mais eficiente, com expectativa de reduzir o consumo em 3.043 MWh por ano, volume equivalente ao uso anual de mais de mil residências.

A economia projetada é de R$1,4 milhão na conta de energia anual do hospital, com retorno do investimento em pouco mais de três anos. No campo ambiental, a modernização reduz as emissões de CO₂ associadas a um dos sistemas mais intensivos em consumo dentro da estrutura hospitalar. Para 2026, a Enel destina até R$96 milhões para iniciativas de eficiência energética em suas áreas de concessão em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.

O caso do HCor ilustra um movimento que está transformando a gestão hospitalar no Brasil: tratar energia como custo gerenciável, não como despesa fixa. No setor de saúde, onde a climatização é crítica para segurança do paciente e desempenho de centros cirúrgicos, o impacto vai além da conta de luz. O controle rigoroso de temperatura e qualidade do ar melhora diretamente condições assistenciais. Para o médico que administra consultório ou clínica: eficiência energética não é tema de hospital grande. Uma troca de sistema de ar-condicionado por inverter, a instalação de LED e a revisão do contrato de energia podem gerar economia de 20 a 30% na conta mensal, liberando margem que pode ir para investimento ou para reduzir a dependência de volume de consultas.

🌍 Notícia do Mundo

NHS descobre 1.900 casos de HIV não diagnosticados testando automaticamente pacientes no pronto-socorro.

Reprodução: Medical Xpress

O programa NHS Blood Borne Virus Opt-Out Testing identificou 1.900 casos previamente não diagnosticados de HIV desde abril de 2022, testando automaticamente adultos que fazem coleta de sangue em pronto-socorros de 88 cidades com alta prevalência do vírus. O modelo é simples: se o paciente já está colhendo sangue por qualquer motivo, o teste de HIV, hepatite B e hepatite C é adicionado automaticamente, a menos que o paciente recuse.

O dado mais impactante: 93% dos diagnosticados não tinham registro anterior de teste de HIV. São pessoas que viviam com o vírus sem saber, sem tratamento e potencialmente transmitindo. Com o diagnóstico, cada uma recebeu suporte especializado e plano de tratamento com antirretrovirais.

A avaliação econômica do programa mostra que o custo é de aproximadamente £6 por teste, considerado altamente custo-efetivo quando comparado ao custo do diagnóstico tardio, que envolve internações, tratamento de infecções oportunistas e perda de qualidade de vida. O modelo opt-out, onde o teste é feito a menos que o paciente recuse, inverte a lógica tradicional do opt-in, onde o paciente precisa solicitar, eliminando a barreira do estigma.

Para o infectologista, o emergencista e o gestor de saúde pública no Brasil: o modelo é replicável. O Brasil tem 92% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, mas estima-se que cerca de 135 mil pessoas ainda não sabem que têm o vírus. Um programa de testagem automática em UPAs e prontos-socorros de alta prevalência, integrado ao fluxo de coleta que já existe, poderia identificar uma parcela significativa desses casos sem custo adicional relevante por paciente.

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