edição #384

Bom dia. O médico que trata o consultório como uma continuação do plantão, sem margem, sem indicadores e sem previsibilidade, não está crescendo. Está resistindo. E resistência tem prazo de validade. A Lei 15.440, sancionada na segunda, eliminou uma lacuna histórica no registro de medicamentos ao exigir certificação de Boas Práticas de Fabricação para todos os medicamentos, nacionais e importados, igualando as regras do jogo. A Austrália flexibilizou a supervisão da terapia assistida com psilocibina e MDMA, permitindo que psiquiatras deixem a sala durante as sessões. E uma investigação da BBC revelou que falsos médicos gerados por IA no YouTube já acumulam 70 milhões de visualizações entre idosos brasileiros, com relatos de pessoas interrompendo medicamentos por orientação de avatares. Começa aqui.

🎯 Carreira médica - Confira o que está em alta

O consultório que funciona como empresa cresce. O que funciona como extensão do plantão, sobrevive.

O médico que sai do plantão e abre um consultório geralmente comete o mesmo erro: trata o consultório como um lugar onde ele atende, não como um negócio que precisa de gestão. E a diferença entre os dois é a diferença entre sobreviver e crescer.

O consultório que funciona como extensão do plantão tem um dono que trabalha nele, mas não trabalha sobre ele. Não sabe quantos pacientes novos chegaram no mês, qual foi o ticket médio por consulta, qual o custo real da hora clínica, qual canal gerou mais agendamentos e, principalmente, quanto sobrou no fim do mês depois de pagar tudo, incluindo o próprio pro-labore.

Já tratamos nas últimas edições sobre precificação, vendas e gestão financeira do consultório. Hoje o ponto é juntar tudo em um único enquadramento: o consultório é uma empresa. E empresa se gerencia com cinco indicadores básicos que cabem em uma planilha simples.

Indicador 1: Custo da hora clínica. Some todos os custos fixos e variáveis do mês (aluguel, equipe, sistema, contador, energia, material, INSS, plano de saúde) e divida pelo número de horas de atendimento. Esse número é o mínimo que cada hora precisa gerar para o consultório não dar prejuízo. Se o ticket médio da consulta estiver abaixo desse valor, você está subsidiando o paciente com o seu próprio tempo.

Indicador 2: Taxa de ocupação da agenda. Quantos horários disponíveis você teve no mês e quantos foram efetivamente preenchidos? Uma taxa abaixo de 70% indica problema de captação ou de posicionamento. Acima de 90% indica que você está no limite e precisa decidir se expande a agenda, aumenta o preço ou contrata outro profissional.

Indicador 3: Taxa de retorno. De cada 10 pacientes novos, quantos voltaram para uma segunda consulta nos últimos 90 dias? Se o número for baixo, o problema pode não ser clínico, mas de experiência: comunicação, encerramento da consulta, follow-up ou ausência de agendamento proativo do retorno.

Indicador 4: Origem dos pacientes. De onde vieram os novos agendamentos? Google, Doctoralia, Instagram, indicação de outro paciente, convênio? Sem esse dado, você não sabe onde investir tempo e dinheiro para crescer, nem qual canal parar de alimentar porque não gera resultado.

Indicador 5: Lucro líquido real. Faturamento menos todos os custos, incluindo o pro-labore. Se esse número for zero ou negativo, o consultório não está dando lucro. Está pagando para você trabalhar. E nenhum volume de plantão extra resolve um consultório que não se paga sozinho.

Onde você está hoje: você consegue responder esses cinco números sem consultar nada? Se não, o consultório não tem gestão. Tem improviso. E improviso funciona até o primeiro mês ruim.

📊 Enquete do dia

Dos 5 indicadores de gestão do consultório mencionados na edição de hoje, quantos você acompanha?

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Rapidinhas

🇧🇷 Notícia do Brasil

Nova lei iguala regras de registro para medicamentos nacionais e importados.

A Lei 15.440, sancionada em 29 de junho e publicada no Diário Oficial da União, tornou obrigatória a certificação em Boas Práticas de Fabricação (BPF) para o registro de todos os medicamentos e insumos farmacêuticos no Brasil, sejam nacionais ou importados. A norma altera a Lei 6.360/76, que rege a vigilância sanitária de medicamentos há 50 anos.

A mudança mais relevante é a eliminação de uma assimetria histórica: até agora, medicamentos importados precisavam comprovar registro prévio no país de origem, enquanto os nacionais seguiam critérios diferentes. Com a nova lei, essa exigência foi removida. Agora, todos os medicamentos, independentemente da procedência, passam a estar sujeitos ao mesmo critério: a comprovação da certificação em Boas Práticas de Fabricação conforme as normas da Anvisa.

Na prática, a lei consolida em legislação federal uma exigência que a Anvisa já aplicava por meio de regulamentação infralegal, eliminando uma fragilidade jurídica que poderia ser explorada por fabricantes para contestar a obrigatoriedade da certificação. Para o médico que prescreve medicamentos importados ou de produção nacional: a unificação dos critérios de registro fortalece a garantia de qualidade independentemente da origem. Isso é especialmente relevante no momento em que o Brasil amplia a produção nacional de medicamentos biológicos e sintéticos, como a semaglutida (Ozivy), onde a confiança do prescritor na equivalência de qualidade é fundamental para a adesão do paciente.

🌍 Notícia do Mundo

Austrália flexibiliza terapia com psilocibina e MDMA. O psiquiatra pode sair da sala.

Reprodução: MedicalXpress

Em 2023, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a permitir que psiquiatras autorizados prescrevessem psilocibina para depressão resistente ao tratamento e MDMA para TEPT que não respondeu a outras terapias. Agora, o regulador australiano (TGA) flexibilizou as regras: o psiquiatra pode deixar a sala durante a sessão, desde que outro profissional treinado, como psicólogo clínico, enfermeiro com experiência em saúde mental ou terapeuta ocupacional, permaneça com o paciente.

A mudança é significativa porque a sessão de terapia psicodélica assistida dura entre 6 e 8 horas. Exigir a presença contínua do psiquiatra limitava severamente o número de pacientes que podiam ser atendidos e tornava o custo proibitivo para a maioria. Mais de 600 terapeutas já completaram programas de formação reconhecidos na Austrália, e o tratamento está disponível em seis dos oito estados e territórios.

As evidências de eficácia para depressão resistente e TEPT ainda são limitadas, e os riscos incluem desde ansiedade transitória até psicose e alterações perceptuais persistentes. As diretrizes australianas de 2026 exigem que o paciente tenha tido sintomas por pelo menos seis meses após o diagnóstico, tenha esgotado tratamentos de primeira linha baseados em evidência e não esteja exposto a novos eventos traumáticos significativos durante o tratamento.

Para o psiquiatra brasileiro: a terapia assistida com psicodélicos não é legal no Brasil, mas o volume de evidência clínica em fase 3 para psilocibina e MDMA cresce globalmente. A aprovação de mercado nos EUA é esperada para 2028. Acompanhar a experiência australiana, os dados de segurança e os modelos de supervisão é investir em conhecimento que pode se tornar relevante para a prática clínica em poucos anos.

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