Edição #344

Bom dia

É domingo à tarde. O seu celular vibra. É um paciente mandando uma foto de uma lesão e pedindo "só uma olhadinha".

Ao abrir essa mensagem, você acabou de entrar em dois campos minados simultaneamente: um jurídico (LGPD e cibersegurança) e um comportamental (a desvalorização da sua hora técnica).

A edição de hoje é um basta na informalidade perigosa. Vamos te mostrar por que o seu WhatsApp pessoal é uma prova contra si mesmo e entregar os scripts exatos para impor limites sem perder a elegância.

Proteja seu CRM e sua paz mental. Boa leitura.

🖥️ Tecnologia na medicina

Cibersegurança: O seu WhatsApp pessoal é uma "bomba-relógio" de LGPD

Cenário comum: você está no plantão, vê uma lesão dermatológica interessante ou um raio-X curioso, saca o celular pessoal, tira uma foto e manda no grupo dos residentes ou para um colega especialista pedindo opinião. Pronto. Você acabou de criar uma prova documental contra si mesmo. Ao usar o WhatsApp pessoal (não criptografado corporativamente) para trafegar dados sensíveis de saúde, você viola múltiplos princípios da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).

O problema não é só a interceptação da mensagem (que é criptografada de ponta a ponta), é o armazenamento. A foto que você tirou vai para a galeria do seu celular. O seu celular faz backup automático no Google Photos ou iCloud. Agora, a foto da úlcera do paciente está misturada com as fotos do churrasco de domingo, acessível em qualquer dispositivo logado na sua nuvem (como o iPad que seu filho usa para jogar). Se você perder o celular ou tiver a conta invadida, dados de pacientes vazam. Além disso, a mistura de contatos pessoais e profissionais impede a gestão do consentimento: você não tem como provar que aquele paciente autorizou o envio daquela imagem via app de mensagem.

📌 Conduta para agora:

  • Para o Recém-Formado:

    • A Regra dos 30 Segundos: Se precisou tirar foto de um exame para discussão clínica (o que deve ser evitado), anonimize antes do clique (cubra o nome do paciente com uma caneta ou papel). Discutiu o caso? Apague a imagem da galeria e da conversa imediatamente ("Apagar para mim" e da lixeira).

    • Separação de Águas: Tenha um WhatsApp Business exclusivo para medicina. Nunca misture conversas de pacientes com conversas de família.

  • Para o Médico Experiente/Gestor:

    • Apps Dedicados: Para discussão de casos clínicos com a equipe, use aplicativos desenhados para a saúde, como o Siilo ou Figure 1, que não salvam as imagens na galeria do telefone e possuem compliance com leis de dados.

    • Termo de Consentimento: Se você costuma trocar mensagens com pacientes, faça-os assinar um termo na primeira consulta autorizando a comunicação via WhatsApp, cientes dos riscos de segurança da plataforma. Isso mitiga sua responsabilidade jurídica.

🩺 Carreira na medicina

Soft Skills: A arte de dizer "Não" para a "só uma olhadinha" no WhatsApp

O WhatsApp virou a extensão do nosso consultório, mas sem a remuneração e sem a proteção jurídica. O cenário é clássico: domingo à tarde, o paciente manda uma foto de uma lesão ou um exame e diz: "Doutor, dá só uma olhadinha? É rápido". Aqui, o médico cai na armadilha da "benevolência tóxica". Ao responder de graça e rápido, você não está sendo "legal"; está desvalorizando sua hora técnica e assumindo um risco civil enorme (fazer diagnóstico por foto sem registro em prontuário).

Dizer "não" é uma das soft skills mais difíceis, pois temos medo de parecer mercenários ou de perder o paciente. O segredo é mudar o frame (a moldura) da resposta: você não está negando ajuda, você está negando um atendimento precário. O argumento nunca deve ser "eu cobro para isso", mas sim "eu preciso te examinar para ter segurança". Quando você coloca a segurança do paciente como motivo da recusa, ele não só aceita, como te respeita mais.

A "olhadinha" informal também cria um precedente perigoso. Se você resolve algo complexo pelo WhatsApp hoje, o paciente entende que esse é o canal padrão. A educação do cliente começa na primeira negativa elegante. Transforme a demanda informal em uma oportunidade de consulta (presencial ou telemedicina).

📌 Conduta para agora (Scripts de Copiar e Colar):

  • Para a "Foto da Lesão/Exame":

    • O que responder: "Oi [Nome]. Vi a foto, mas imagem engana muito. Para eu te passar um diagnóstico e tratamento seguros, preciso examinar isso pessoalmente (ou via vídeo com anamnese). Não quero arriscar te passar algo errado por aqui. A [Secretária] consegue te encaixar amanhã às [Horário]?"

    • Por que funciona: Você invocou a segurança ("não quero arriscar") e já ofereceu a solução (agendamento).

  • Para a Dúvida Nova (dias após a alta):

    • O que responder: "Oi [Nome]. Essa queixa parece não ter relação com o que tratamos mês passado. O ideal é fazermos uma nova avaliação completa para entender o que está acontecendo. Podemos fazer via Telemedicina se preferir, o valor é X. Te mando o link para pagamento e agendamos?"

    • Por que funciona: Delimita que o "retorno" acabou e que um novo problema exige uma nova consulta remunerada.

  • A Barreira Técnica (Configuração):

    • Use o WhatsApp Business e configure uma mensagem de ausência automática para noites e fins de semana: "Olá. Esta é uma conta profissional monitorada pela equipe em horário comercial. Em caso de emergência médica, dirija-se ao pronto-socorro. Dúvidas e agendamentos serão respondidos a partir de segunda-feira às 08h." Isso tira a pressão de você responder imediatamente.

🇧🇷 Notícia do Brasil

Anvisa investiga mortes e casos de pancreatite por "canetas emagrecedoras"

A Anvisa intensificou o monitoramento sobre os análogos de GLP-1 após notificações de eventos adversos graves, incluindo casos de pancreatite aguda e óbitos suspeitos associados ao uso dessas medicações. O alerta surge em meio à "viralização" do uso estético e indiscriminado das canetas, muitas vezes obtidas no mercado paralelo ou utilizadas sem qualquer acompanhamento médico rigoroso.

Para a prática clínica, este é um lembrete severo da fisiologia e da farmacologia. Embora sejam drogas com perfil de segurança estabelecido quando bem indicadas para obesidade e diabetes, o mecanismo de ação incretínico pode, em pacientes predispostos, desencadear processos inflamatórios pancreáticos. O risco aumenta exponencialmente na automedicação, onde contraindicações relativas e absolutas (como histórico de litíase biliar ou pancreatite prévia) são frequentemente ignoradas pelo paciente leigo.

A conduta deve ser de vigilância ativa. Pacientes em uso de semaglutida ou liraglutida que cursem com dor abdominal persistente (irradiada para o dorso), náuseas incoercíveis ou vômitos devem ter a medicação suspensa e serem investigados imediatamente (amilase/lipase). A prescrição deve ser blindada por uma anamnese completa, fugindo da "cosmetização" da endocrinologia que trata a medicação como isenta de risco biológico.

🌍 Notícia do Mundo

CABG: Duas artérias, mesma sobrevida a longo prazo

Estudos recentes apresentados na Society of Thoracic Surgeons confirmam que o uso de enxertos arteriais múltiplos em cirurgia de revascularização do miocárdio (CABG) para pacientes de baixo risco com doença multiarterial está em ascensão. A utilização da combinação de artéria radial com uma artéria torácica interna (SITA+RA) tem demonstrado sobrevida comparável ao uso de duas artérias torácicas internas (BITA) em um seguimento de até 15 anos.

Essa constatação é de grande importância para a prática cirúrgica, pois valida a segurança e eficácia de diferentes estratégias de revascularização. A crescente adoção de enxertos arteriais múltiplos reflete um esforço contínuo em otimizar os resultados a longo prazo para pacientes submetidos a CABG, especialmente aqueles considerados de menor risco cirúrgico.

Os dados apresentados reforçam a capacidade de oferecer alternativas terapêuticas robustas. A comparabilidade na sobrevida a longo prazo entre as duas abordagens — SITA+RA e BITA — permite aos cirurgiões cardíacos uma maior flexibilidade na escolha do enxerto, adaptando-se às características individuais do paciente e à disponibilidade dos vasos, sem comprometer a qualidade do prognóstico.

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